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tirado do blog do Altino
No dia 02 de Janeiro de 2007, um senhor idoso se aproxima do Palácio do Governador, depois de atravessar a Praça dos Povos da Floresta falou com o Policial que montava guarda:
- Por favor, eu gostaria de entrar e me entrevistar com o Governador Márcio Bittar.
O soldado olhou para o homem e disse:
- Senhor, o Sr. Márcio Bittar não é nem nunca foi Governador desse estado.
O homem disse:
- Está bem.
E se foi. No dia seguinte, o mesmo homem idoso se aproximou do Palácio do Governador e falou com o mesmo Policial:
- Por favor, eu gostaria de entrar e me entrevistar com o Governador Márcio Bittar.
O soldado novamente disse:
- Senhor, como lhe falei ontem, o Sr. Márcio Bittar não é nem nunca foi Governador desse estado.
O homem agradeceu e novamente se foi. Dia 04 de janeiro ele volta e se aproxima do Palácio do Governador e falou com o mesmo guarda:
- Por favor, eu gostaria de entrar e me entrevistar com o Governador Márcio Bittar.
O soldado, compreensivelmente irritado, olhou para o homem e disse:
- Senhor, este é o terceiro dia seguido que o Senhor vem aqui e pede para falar com o Sr. Márcio Bittar. Eu já lhe disse que ele não é e nem nunca foi Governador deste Estado, portanto ele nunca vai estar aqui. O Senhor não entendeu?
O homem olha para o soldado e diz:
- Sim, eu compreendi perfeitamente, mas eu ADORO ouvir que ELE NÃO É E NUNCA FOI GOVERNADOR DESTE ESTADO!
O soldado, em posição de sentido, prestou uma vigorosa continência e disse:
- Até amanhã, Senhor!!!
Escrito por Antonio Alves às 19h41
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novo blog
PLATÃO DIANTE DA CAVERNA
Desde que o homem percebeu que poderia criar coisas, transformar aquilo que estava ao seu redor, aquilo que ele via, sentia e tocava, então ele desejou representar as coisas. Quer dizer, o homem necessitava criar formas de representação daquilo que ele tinha a sua volta ou daquilo que ele havia modificado. Por exemplo, ele havia amarrado animais próximo de si. Para amarrar os animais precisava de cordas e precisava saber amarrar (fazer um nó), precisava também saber desfazer o nó (É claro! Senão, como é que os coitados dos carneiros iriam se soltar, né?) Bom, mas aprender a dar nó é outra história, primeiro o homem se concentrou apenas em criar uma forma de representar os animais que ele havia aprisionado. Como? Aparentemente muito fácil! Desenhou-os numa caverna. Eram dois, dois carneiros selvagens. Então fez dois desenhos semelhantes. Se aprisionasse mais, desenharia quantos fossem (obs: aqui surge outra forma de representação: a matemática).
Mas o que quero dizer é que ele (o homem) desenhou as figuras representando algo que existia e que ele percebia e precisava dominar cada vez mais para o bem de sua própria sobrevivência (caso não aprisionasse os animais teria que correr atrás jogando pau e pedra nos coitados dos bichos para matá-los e depois comê-los como fazem os outros animais). Bom, mas o fato é que a necessidade de representação vem de longe.
O homem então a partir daí cria inúmeras linguagens para representar fatos e objetos. As representações não são em verdade fielmente os fatos e os objetos, mas são seus representantes. Daí surge a fala, a escrita, o livro, o jornal, a fotografia, o cinema, o rádio, a TV, a Internet, os Blogs. Como para toda ação segue uma reação, isso implicou para o animal homem o seguinte: quem não sabe falar, escrever, fotografar, filmar, navegar, nem blogar, não vive integrado à civilização humana, não saiu das cavernas e prefere viver na era dos grunhidos.
Por isso, eu que não estou morto nem nada, lanço aqui hoje para todo o planeta, diretamente da Amazônia mais ocidental, especificamente na cidade de Cruzeiro do Sul, no Acre, localizada num país continente chamado Brasil, o Blog 'Platão Diante da Caverna'. Um blog como outro qualquer que tenta representar o pensamento e as interpretações de um indivíduo sobre os fatos e o cotidiano na terra e em sua aldeia, através da escrita. Um blog que estará disponível para um publico alvo de bilhões de internautas no mundo todo (desde que saibam ler e escrever português e queiram aqui expressar suas existências de alguma forma, certo?). Na verdade eu nem quero que bilhões de pessoas visitem este blog. A mim me bastam 100 mil visitas por dia. É o suficiente. Então ficamos assim, no próximo post falo sobre por que o nome do blog é 'Platão Diante da Caverna', tá?.
http://plataodiantedacaverna.zip.net/
Escrito por Antonio Alves às 13h13
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ainda isso
O Mundial de Zidane
Por Eduardo Galeano (*)
Montevidéu, julho/2006 – No cenário da sanidade, um ataque de loucura. Em um templo consagrado à adoração do futebol e ao respeito de suas regras, onde a Coca-Cola proporciona felicidade, Master Card leva à prosperidade e Hyundai dá velocidade, são disputados os últimos minutos da última partida do campeonato mundial. Este é, também, a última partida do melhor jogador, o mais admirado, o mais querido, que está dizendo adeus ao futebol. Os olhos do mundo estão voltados para ele. E, subitamente, este rei da festa se converte em um touro furioso e investe contra um rival e o derruba, com uma cabeçada no peito, e se vai.
Deixa o campo por determinação do árbitro e pela vaia do público, que seria uma ovação. E não sai pela porta principal, mas pelo triste túnel que leva aos vestiários. No caminho, passa ao lado da taça de ouro reservada à equipe campeã. Ele nem a olha.
Quando este Mundial começou, os especialistas disseram que Zinedine Zidane estava velho. Mariano Pernia, o Argentina que joga na seleção espanhola comentou: “Velho é o vento, e continua soprando”. E a França derrotou a Espanha e Zidane foi, nessa partida, e nas seguintes, o mais jovem de todos.
Depois, no fim do campeonato, quando aconteceu o que aconteceu, foi fácil atacar o ruim do filme. Mas era, e continua sendo, difícil compreendê-lo. Será verdade? Não será um pesadelo, um sonho equivocado? Como pôde abandonar os seus quando mais necessitavam dele? Horacio Elizondo, o árbitro, lhe deu cartão vermelho com toda a razão, mas por que Zidane fez o que fez?
Ao que parece, o zagueiro italiano Marco Materazzi lhe dirigiu alguns desses insultos racistas que os energúmenos costumam gritar desde as tribunas dos estádios. Zidane, muçulmano, filho de argelinos, havia aprendido a se defender, desde a infância, quando recebia ataques desse tipo nos subúrbios pobres de Marselha. Conhece bem esses insultos, mas lhe doeram como a primeira vez, e seus inimigos sabem que a provocação funciona. Mais de uma vez fizeram com que perdesse a cabeça desta maneira suja, e Materazzi não é, digamos, famoso por sua limpeza.
Escrito por Antonio Alves às 16h04
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continuação
Este Mundial esteve marcado pelas declarações das seleções, antes de cada partida, contra a peste universal do racismo, e Zidane foi um dos jogadores que o fez possível.O tema é candente. Às vésperas da Copa do Mundo, o dirigente político Jean-Marie Le Pen proclamou que a França não se reconhecia em seus jogadores, porque eram quase todos negros e porque seu capitão, um árabe, não cantava o hino nacional. Algum tempo antes, o treinador da seleção espanhola, Luis Aragonés, havia chamado de negro de merda o jogador francês Thierry Henry, e o presidente perpétuo do futebol sul-americano, Nicolas Leoz, apresentou sua autobiografia dizendo que nasceu em um povoado onde viviam 500 pessoas e três mil índios.
Mas pode-se reduzir a um insulto, ou a vários insultos, esta tragédia do vencedor que escolhe ser perdedor, do astro que renuncia à glória quando a tem ao alcance das mãos? Talvez, quem sabe, essa louca investida tenha sido, embora Zidane não quisesse, nem soubesse, um rugido de impotência.
Talvez tenha sido um rugido de impotência contra os insultos, as cotoveladas, as cusparadas, os chutes mal-intencionados, as simulações dos especialistas em contorções, mestres do ai de mim, e contra as artes de teatro dos farsantes que matam e exibem uma cara de não fui eu.
Ou, talvez, tenha sido um rugido de impotência contra o êxito esmagador do futebol feio, contra a mesquinhez, a covardia e a ganância do futebol que a globalização, inimiga da diversidade, está nos impondo. Por fim, na medida em que o campeonato avançava, ficava cada vez mais claro que Zidane não era deste circo. E suas artes de magia, sua presença, sua melancólica elegância, mereciam o fracasso, bem como o mundo de nosso tempo, que fabrica em série os modelos do sucesso, merecia este medíocre campeonato mundial.
E, de alguma maneira, também se pode dizer que a Itália merecia a Copa, porque todas as seleções, algumas mais, outras menos, jogaram à italiana e com o mesmo esquema de jogo, linha de quatro atrás, defesa fechada e gols roubados graças a contra-ataques.
A Itália se impôs, como tinha de ser. No final, o esquema tático causou muitos bocejos, mas também lhe deu quatro títulos mundiais. E ao longo desta quarta vitória sofreu dois gols, um contra e outro de pênalti, e na retaguarda, não na vanguarda, teve seus melhores jogadores: Buffon, goleiro, e Cannavaro, zagueiro.
Oito jogadores da Juventus chegaram à final em Berlim: cinco jogando pela Itália e três pela França. E se deu a casualidade de a Juventus ser a equipe mais comprometida nos escândalos que vieram à público pouco antes do Mundial. Das mãos limpas aos pés limpos: a justiça italiana parecia decidida a mandar para o exílio, a série B e a série C, os clubes mais poderosos, incluindo a Lazio, a Fiorentina e o Milan, do virtuoso Silvio Berlusconi, que praticou a fraude e a impunidade no futebol, nos negócios e no governo. Os juízes comprovaram toda uma classe de trapaças, contra árbitros, compra de jornalistas, falsificação de contratos, adulteração de balanços, divisão de posições no campeonato italiano, manipulação dos programas da tele...
Um ministro do governo anunciou a anistia caso a Itália vencesse o Mundial. A Itália ganhou. Tudo isso dará em nada, uma vez mais, e como sempre? Zidane foi punido por muito menos.
Alguém, não sei quem, soube resumir da seguinte maneira a Copa 2006: “Os jogadores têm uma conduta exemplar. Não bebem, não fumam, não jogam”. Os que de vez em quando acertavam a bola no gol, não jogavam bonito, e os que jogavam bonito nunca acertavam o gol. Toda a África ficou fora logo cedo, e não demorou muito para toda a América Latina também partir para o exílio. O campeonato mundial se converteu em uma Eurocopa.
Os resultados recompensavam este que agora chama de sentido prático: altos muros defensivos e na frente algum atacante, um Cavaleiro Solitário, implorando um favorzinho de Deus. Como costuma ocorrer o futebol e na vida, perde o que melhor joga e ganha o que joga para não perder.
Os pênaltis ajudaram a injustiça. Até 1968, as partidas difíceis eram definidas no cara ou coroa. De alguma maneira, continua sendo assim. Concluída a prorrogação, os pênaltis se parecem muito com o capricho do acaso. A Argentina foi mais do que a Alemanha, e a a França mais do que a Itália, mas uns poucos segundos puderam mais do que duas horas de jogo, e a Argentina teve de voltar para casa e a França perdeu a Copa.
Pouca fantasia foi vista. Os artistas deram lugar aos levantadores de peso e aos corredores olímpicos, que ao passarem chutavam a bola ou um adversário.
O Mundial foi tão aborrecido que os donos do negócio não tiveram outra coisa a fazer a não ser imaginar projetos para injetar entusiasmo no decaído espetáculo. Uma das idéias nascidas dentro da Fifa propõe castigar o empate não concedendo ponto às equipes. Outra sugere aumentar a distância entre as traves para aumentar o número de gols. E outra, se não te agrada este cardápio, pretendem uma Copa a cada dois anos.
Mas o futebol profissional, espelho do mundo, joga para ganhar, não por prazer, e o cálculo de custos zomba destas inúteis piruetas imaginárias dos burocratas que comandam o futebol mundial. Menos mal que o futebol profissional não é todo o futebol. Basta sair às ruas, ir às praias, aos campinhos, para comprovar que a bola pode rolar com alegria. No futebol profissional, o que aparece na televisão, pouca alegria se vê. Parecemos condenados à nostalgia do velho tempo dos cinco forwards e à triste comprovação de que agora nos resta apenas um, e no passo que seguimos nem um restará: todos atrás, nenhum na frente. Como comprovou o zoólogo Roberto Fontanarrosa, o atacante e o urso panda são espécies em extinção. (IPS/Envolverde)
(*) Eduardo Galeano, escritor e jornalista uruguaio, autor de As veias abertas da América Latina e Memórias do fogo.
(Envolverde/ IPS)
Escrito por Antonio Alves às 16h03
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"Essa é boa pro qualquer coisa", disse Altino.
Carta do Zidane ao Parreira
Lettre
"Messiê Parreirá,
Je suis desolé aussi pour la derrote de votre selección. Mais, comparrê com le reste, vous até qui si sairrôm bien. Non culpê les jogadeurs di la pessime actuacion onc lá partide. Nous tous sabemous qui la culpe est de lá imprensá.
Ou est la plume de madame? Son les repourteur qui denominé le “Quadresiéme Magique”, son las cronique du Pedrô Biel, Corá Ronaí, Xexeô et Marcus Uchoá, un petit “sketch” on “Fantástique” et la transmission du Galvian Buenô que fair con le peupl brazilien acreditê en quelque chose qui passe na Globô.
Perdê la Coupe cest apenás un petit problem. Tu agorrá vais a manger le baguette qui le diable amasseur. Mais, depuis ils von si esquecê i tu vais a pouder dourmir en pé. Pasquê daqui a poucô serrá le gran finale di Belissimá, et logô en seguide vous terrá que escolhê votre president, et despuis serrá Nöel, et despuis serrá Reveillon, Carnaval, Bal Masquê et…puff, voilá! Tu sumirrá du mape. Como la eau du cologne qui si evaporre. Como la champagne qui detonê depuis de lá partida.
Le Zagallô es mui superticiô e adorê le numer 13. PARREIRÁ BURRÔ tem 13 letras, pois non?
Tous le peuple de la France, agradece la preferânce. Moi non plus. Le Freguê tienderá toujours la raison.
Au revoir,
Zinedine Zidane, Zizou amis du pour".
Escrito por Antonio Alves às 15h01
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sem (muito) choro
O lado bom da derrota
Vinicius Mota
Nunca é bom perder, no futebol nem na vida. Mas a derrota para a França, que deu um olé de 90 minutos no Brasil em Frankfurt, pode ter o seu lado bom. Vejamos:
Fim da era Parreira. O joguinho merreca do Brasil foi a cara de (deposite o substantivo aqui o leitor) do Carlos Alberto Parreira (que disse, pois é, que o escrete amarelo não voltaria mais cedo da Alemanha). Agora, viva, é aufwiedersehen, Parreira! Não teremos mais de agüentar o Frente Fria no banco. A CBF deve dar a outro cristão a chance de ser espinafrado pela torcida nos próximos quatro anos. Parece que, para substituir Parreira, a confederação anda sondando Wilson Mano, ex-craque do Corinthians notabilizado por seus chutes certeiros e que, como técnico, já dirigiu a gloriosa Francana, no interior paulista.
Fim da era Roberto Carlos. Há vários anos, ele não dribla, não apóia, não passa, não lança, não marca, não chuta, não cruza, mas ainda assim há quem o considere um bom jogador. Agora, seu status de fato vai se encontrar com o oficial: continuará não jogando na seleção, mas fora das quatro linhas (Deus queira!).
Escola em tempo integral para todos. Como disse Thierry Henry, o atacante francês que carimbou o passaporte de volta dos canarinhos para o ninho (quem se lembra do hit da Copa de 1982?), o Brasil é um celeiro de craques porque os meninos aqui ficam jogando bola o tempo todo, enquanto os franceses têm de ficar na escola o tempo todo. O presidente Lula, arguto fã de futebol, entendeu a mensagem cifrada, irônica. Já encomendou um plano urgente para massificar o ensino em tempo integral no Brasil. Sua intenção é derrotar a França nos próximos mundiais com 23 jogadores que saibam extrair a raiz quadrada de 4 e declinem corretamente o plural de "degrau".
Gaúcho volta, no Barcelona. O clone que os seqüestradores de Ronaldinho enviaram em seu lugar para a Alemanha bem que se parecia com o melhor do mundo. O mesmo olho esbugalhado, a mesma tez, os mesmos dentes pronunciados, o mesmo jeito de andar..., mas era pedir demais que jogasse a mesma bola do craque gaúcho. Libertado do cativeiro nas montanhas afegãs neste sábado (o governo americano não deu detalhes da operação que o resgatou), o original voltará a jogar no clube mais famoso de Barcelona após merecidas férias.
Férias dos evangélicos. Que me desculpem os neopentecostais, mas é um porre essa história de jogador enviado por Deus, atleta de Cristo, gol oferecido ao Todo-Poderoso. Que voltem os macumbeiros! Um trabalhinho bem feito na encruzilhada por onde passou a delegação francesa antes do jogo, para amarrar o Zidane, teria liquidado a fatura a nosso favor. Em vez de assessor para "motivar" os jogadores, a próxima delegação vai abrir o posto de pai oficial de santo.
Férias da crônica esportiva. Põe o Juninho, tira o Emerson, põe o Robinho, tira o Adriano, aposenta o Ronaldo, alarga a chuteira do Ronaldo, põe o Ronaldo no spa, dá liberdade para o Gaúcho, troca o quadrado pelo triângulo, instaura o polígono das secas, cuidado com a bola nas costas do Cafu, recua o Dida, falta atitude, falta meio de campo, falta alegria de jogar, falta pulso no Parreira, falta coragem para mudar, falta ousadia, falta "desempenhar" (abusaram desse verbo) um bom futebol... Tanta objetividade analítica cansa. A boa notícia é que agora saem os palpiteiros do futebol e entram os da política, que vão descobrir, quiçá com a mesma perspicácia, quem vai ganhar a eleição de outubro. Vamos fazer um bolão?
Vinicius Mota, 33, é editor de Opinião da Folha (coordenador dos editoriais). Foi também editor do caderno Mundo e secretário-assistente de Redação da Folha. Escreve para a Folha Online aos domingos.
Escrito por Antonio Alves às 11h20
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(texto que o Altino mandou, pra me provocar)
O Estranho Viajante
(uma crônica budista: o elogio da "preguiça")
Lin Ching Xuan
Certa vez participei de uma excursão, pelo leste de Taiwan, e havia no grupo um sujeito muito estranho. Ele passava o dia todo dormindo no hotel enquanto os outros saíamos para conhecer as belezas do lugar. Quando ele acordava antes da gente chegar do passeio, ficava sentado no bar, tranqüilamente tomando um café. Às vezes, ele não acordava nem para comer, alegando que queria descansar. Ele não gostava de falar e se alguém tentava puxar papo, ele apenas dava um sorriso e ficava quieto.
Embora tudo em sua conduta fosse silêncio, ninguém conseguia ignorá-lo. Ele era como um mistério e, pelas costas, os companheiros não paravam de comentar sobre seu comportamento.
Às vezes, eu o imitava: sentava-me no bar, em silêncio, sem proferir nenhuma palavra e sorria para ele.
E, assim, ficamos amigos.
Uma vez não resisti e lhe perguntei: "Já que você participa da excursão, por que não passeia conosco?"
"Sou um homem preguiçoso", disse ele, "acho que ficar em pé é melhor do que andar; sentar, melhor do que ficar em pé; deitar, melhor do que sentar e dormir é ainda melhor do que ficar só deitado. Eu participo da excursão porque, assim, não preciso me preocupar com arranjar o que comer, onde morar e outras bobagens dessas...!"
Eu já vi muitas pessoas trabalhadoras que estão sempre ocupadas, dificilmente conheço um preguiçoso. E os preguiçosos geralmente não costumam assumir esse título. Então, começamos a conversar sobre a preguiça.
Para esse viajante estranho, um homem preguiçoso tem dois princípios: primeiro, não faça nada que possa não ser feito. Por exemplo, ele compra sete camisas, uma para cada dia da semana, ao final de uma semana, todas vão estar usadas. Volta a usá-las pela segunda vez na semana seguinte e na terceira semana também. A vantagem é que precisa lavar roupas apenas uma vez a cada três semanas. Sapatos, de preferência, sem cordões, melhor ainda se não for preciso agachar para calçá-los. Comida, se encher o estômago, já está bom. De preferência, em restaurante: preparar em casa dá muito trabalho. Alimentos crus é melhor do que cozidos, procure dispensar requintes na alimentação: pão é mais fácil do que macarrão, que é mais fácil do que arroz (para cozinhar arroz é necessário lavá-lo antes...). Frutas, escolha aquelas que não precisam ser cortadas: banana, tomate, maçã são melhores do que abacaxi ou melancia.
E para fazer compras, não adquira mais do que o estritamente necessário, pois quando a gente começa a ter muitas coisas caras e boas, começa também a querer colecionar e guardar com cuidado. Além disso, surgem as preocupações de manutenção, e complicações que não têm mais fim: não nós possuímos as coisas; elas nos possuem. "O homem gasta muito tempo e muita força para buscar fama, sucesso e satisfazer desejos materiais. Assistindo a tudo isso de longe, o homem parece um grande tolo", disse o estranho viajante.
Escrito por Antonio Alves às 17h19
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continuação
O segundo princípio de um homem preguiçoso é: não lembre de coisas que possam ser não lembradas. "As pessoas não param de lembrar coisas bobas, preocupam-se com tudo. Eu prefiro sentar-me e olhar nuvens", disse ele. Contou-me também que a maior sabedoria que os antigos monges zen buscavam tem tudo que ver com a preguiça. Há uma poesia que diz:
Na primavera, há cem variadas flores;
No outono, o luar;
No verão, ventos frescos
E, no inverno, neves;
Se não tivermos preocupação
Suspensa no coração,
Estaremos sempre
Nos bons momentos da vida.
Ele recitou ainda outra poesia para mim, esta, da Dinastia Yuang:
Tranqüilamente, Sem ter nada para discutir,
Apenas um incenso a queimar
E sua fragrância para sentir;
Tenho chá ao acordar
E refeições para a fome,
Vejo a corrente do rio, ao caminhar
E as nuvens do céu, ao sentar.
As duas poesias são antigas: como pode um homem preguiçoso saber recitá-las de cor? Perguntei curioso: "Você diz que não costuma lembrar das coisas e se esforça para decorar poesias?"
"Não fui eu que as lembrei: foram as poesias que quiseram ficar em meu coração", respondeu ele. Depois me disse que a maior dificuldade de ser preguiçoso é que tem que usar muito a cabeça para pensar em como pode ser mais preguiçoso ainda...
Escrito por Antonio Alves às 17h19
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novos tédios
A CHATICE DAS NOTÍCIAS
Sérgio Augusto de Andrade
Num dia em que estava mais disposto a desabafar que a suspirar (e ele nem suspirava tanto assim), Paul Valéry – o poeta francês que adorava matemática e detestava novidades – confessou que os acontecimentos o entediavam. No contexto histórico em que foi escrita, entre a Primeira e a Segunda Guerra Mundial, a frase acabou se tornando célebre: era uma época, afinal, em que os acontecimentos pareciam poder inspirar tudo, menos tédio. Não que isso importe: a reação de Valéry podia ser desconcertante, mas era também perfeitamente compreensível.
Eu sempre fiquei imaginando que, se os acontecimentos entediavam Paul Valéry, ler sobre os acontecimentos devia entediá-lo muito mais. Já é suficientemente maçante que as coisas aconteçam; não existe nada mais chato que ler sobre elas.
Afinal de contas, se a vida é o que acontece quando não se está prestando atenção, o ideal seria que ninguém nos chamasse a atenção para nada do que está acontecendo – só assim se poderia viver melhor. Nada é mais desanimador que a multidão de profissionais bem-intencionados que faz questão de que saibamos tudo, o tempo todo, sobre tudo. Mais que uma benção, a ignorância pode ser uma forma de saúde – e a omissão, um tipo de ecologia. Já sabemos, seja como for, muito – e sobre possivelmente mais do que deveríamos. Chegou a hora de começarmos a nos dedicar a ignorar. Totalmente insistente, a imprensa faz questão que continuemos informados. É um ideal bobo. “Os acontecimentos são a espuma das coisas”, escreveu Paul Valéry, “o que me interessa é o mar”.
Com mar ou sem mar, 2006 promete ser um ano com muita espuma. É um ano que já nasce à sombra da tediosa expectativa de uma Copa do Mundo, prossegue à sombra da tediosa expectativa das eleições e desfia sua sucessão maçante de dias e meses a partir dos impulsos de seus lançamentos, seus vernissages, seus eventos, seus ciclos e, como os anos também passam, mais uma bienal. Com sua paixão rombuda pela tagarelice, os jornais devem reagir à altura.
Iludido por um tipo de fetichismo – o fetichismo da informação – que costuma ser tão hipnótico quanto aquele que certos românticos costumam alimentar por saltos altos, todo jornal parece acreditar não só que seu primeiro dever é informar mas também que a informação está sempre ligada ao que é novo, imediato, e que se renova. É uma convicção atordoante – cujo único, dúbio mérito é reduzir o mundo a um alucinado gerador de ruído. Meu jornal ideal - seja na mídia, como se diz hoje em dia, que for – é diferente. Meu sonho seria receber diariamente algum jornal que, esgotado e vencido pela marcha das notícias, decidisse repetir e se concentrar sobre um fato único, de preferência escolhido ao acaso (ninguém nunca sabe, afinal, o que é realmente importante). Dia após dia, alguma luz nova e discreta seria jogada mais uma vez sobre o mesmo fato – descrito e redescrito alternadamente por cartógrafos, sociólogos, matemáticos, críticos de literatura, geógrafos, músicos, teólogos, arquitetos, químicos, historiadores e, quem sabe, até jornalistas. Não se precisa de mais que um único fato para se conseguir uma cobertura virtualmente eterna. E já que os acontecimentos entediam, é possível que um único acontecimento, elevado à categoria de uma obsessão planetária, acabe excitando. Multiplicar o novo pode ser uma ação em último caso vazia e, além disso, um pouco inútil – nada provavelmente é tão estimulante quanto repetir o mesmo.
Escrito por Antonio Alves às 16h25
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Vai ser difícil repetir o mesmo em 2006. Em pouco tempo, ninguém vai conseguir acordar de manhã e não ser trucidado por notícias da preparação de jogadores. Notícias do hotel onde ficam. Notícias de contusões. Notícias de treinos secretos. Notícias de expectativas. Notícias de substituições.
Em pouco tempo, todos nós vamos saber a fundo, querendo ou não, a posição da Croácia nas bolsas de apostas de Londres. Vamos conhecer item por item da dieta balanceada de jogadores cujos nomes é impossível – ou desaconselhável – pronunciar. Vamos estar atualizados, minuto a minuto, dos resultados de jogos com a Suécia, a Costa do Marfim e Sérvia e Montenegro. Vamos conhecer estádios distantes com mais intimidade do que conhecemos nosso quarto de dormir. Para qualquer homem de bem, essa torrente desarrazoada de informações não é só um excesso primitivo; é um insulto.
No auge da Copa do Mundo que foi disputada na Argentina, o valoroso povo portenho costumava se entregar de forma muito sistemática ao precioso êxtase de acompanhar tudo que se passava, momento a momento, com as equipes e os jogos. Foi com o país mergulhado nessa atmosfera festiva que o repórter de um jornal menor acabou escalado para ouvir algum nome mais preparado – que pudesse discorrer de forma um pouco mais profunda sobre os reflexos do esporte na alma argentina. O nome escolhido foi o de Jorge Luis Borges. E sua análise um pouco mais profunda sobre os reflexos do esporte na alma argentina se resumiu à uma única frase: “Estoy harto del Mundial”, ele resumiu. E despediu-se do repórter consciente de ter cumprido da melhor forma seu compromisso jornalístico com o país, o futebol e a alma argentina.
Eleições são só outro tipo de torneio. Por serem nacionais, costumam ser abrangentes; por darem a impressão de que representam algo, costumam ser persistentes. As eleições de 2006, todo mundo sabe, podem revestir-se de um sabor singular e, como em toda tragédia – ou toda farsa, recorrerem a reações delicadas como a vingança, a desforra, o insulto e o despautério. São reações muito comuns a vários tipos de esporte. Como com todo esporte, a imprensa também não parece interessada em refrear nem sua paixão, sua voz ou sua compulsão para o detalhe. O único problema é que detalhes num romance são sempre saborosos; os detalhes da vida pública, numa modulação anti-higiênica da frase de Paul Valéry, são espumas de outro mar.
A essa altura, conformados com tanta espuma, chegará a hora da explosão de nossa grande bolha: a bienal. Placares e pesquisas serão substituídos por expressões como “valores táteis”, “discurso”, “articulação”, “tangência”, “colapso”, “desejo” e “diálogo”. É nesse momento que começaremos a sentir saudades de ler sobre dietas balanceadas e a legalidade de certos escanteios. Nada como o valor tátil de uma bola rolando.
Com sorte, a essa altura o ano estará no fim. “Para que tanta perna, meu Deus?”, perguntou Carlos Drummond de Andrade num verso que flutuava entre a exasperação e o desalento. A quantidade de pernas é um problema cada vez mais insignificante se comparado à quantidade de informação. Os acontecimentos entediam.
E é bom nos prepararmos: 2006 será um ano movimentado.
Mau sinal.
Escrito por Antonio Alves às 16h24
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velharias políticas da província
Jornal O RIO BRANCO
19 de Julho de 1987
Coluna A COISA EM SI
Coisas deste mundo
Na intenção de esclarecer os leitores a respeito das coisas de outro mundo, as quais estão invadindo (faz tempo) o mundo dos vivos, esta coluna oferece hoje uma pequena lista dos monstros que povoam o nosso cotidiano. Damos também algumas dicas para que o leitor possa combater esses monstros. Afinal, nós vivos devemos saber nos defender dos muito-vivos. Rezar não basta.
BICHO DE SETE CABEÇAS
Sete cabeças ele tem, todas pensam igual. Eram todas favoráveis a um mandato de apenas quatro anos para Sarney. A cabeça chefe, conhecido como camarada Aluízio Bezerrosvsky, com seus bigodes que crescem em noites de lua cheia, jurava fazendo sete sinais da cruz que votaria, na convenção do PMDB, a favor de um mandato de quatro anos. Mas ai recebeu um recado: ou vota num mandato de cinco anos ou vai perder todas as sete cabeças, que seriam cortadas uma por uma. O camarada refez sua analise de conjuntura, resolveu que daria cinco anos para o Sarney por uma questão de afinidade com os seus bigodes e o resultado é que o bicho de sete cabeças continua solto por aí, uma cabeça em Brasília, outras em Rio Branco, outras no Juruá ... apavorando meio mundo. Para combater esse bicho, o método é simples: retire sete pelos do bigode dele, junte com fios de cabelos de um peruano e faça um chá. Depois beba. Não tem efeito mas é divertido.
COBRA GRANDE
É a fila. Tem fila pra comprar pão, fila pra comprar gás, fila pra pedir emprego (essa então é enorme). Quando a fila é pequena, chame-se “cobrinha”. No caso de você entrar numa cobra grande como, por exemplo, a fila pra falar com o deputado Manoel Machado, você deve benzer-se três vezes e soltar um pum bem fedorento pra todo mundo correr e você ficar sozinho na fila. Pronto, acabou-se a cobra grande.
CUCA
No começo, ela assustava todo mundo, não apenas as crianças. Depois arranjou um bom emprego na prefeitura e hoje não assusta mais ninguém. Mas no caso de você topar com ela na rua, diga que é fazendeiro e que chegou recentemente de Mato Grosso.
Escrito por Antonio Alves às 04h35
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continuação
VAMPIRO
Antes ele andava pelas noites, jogando conversa mole pra cima das meninas, dizendo frases como “você tem um pescocinho lindo”. Quando encontrava uma mais bonitinha, cravava-lhe os dentes e sugava-lhe todo o sangue. Mas às vezes ele voltava pra casa sem nada, numa fissura medonha, e tinha que contentar-se em tomar catchup com canudinho. Agora ele arranjou um jeito mais fácil de viver: foi trabalhar na secretaria da fazenda, no setor responsável pela arrecadação do ICM. Encontrando com ele nas noites de sexta-feira, esconda bem o pescoço e convide-o para tomar um campari.
MAPINGUARI
Só ataca na área rural. Ele tem os pés voltados para trás, de modo que quem encontra seu rastro pensa que está indo numa direção quando na verdade ele está indo em outra. Por isso foi nomeado executor do programa de reforma agrária. Os posseiros e seringueiros, indo no rastro dele, vão bater na periferia da cidade, enquanto ele está almoçando na casa de algum fazendeiro. Encontrá-lo e quase impossível mas, se isso ocorrer, não demonstre medo. Apenas imite o sotaque paranaense e diga que esta chegando agora de Rondônia. Com medo de pegar malária, ele se afasta rapidamente.
BOITATÁ
É funcionário publico, falta apenas dois anos para ele se aposentar. Daí ele fica só enrolando. O boitatá nunca está. Saiu pra tomar um cafezinho. Não assusta ninguém. Para combatê-lo, é só dizer que veio mandado pelo secretário fulano ou deputado sicrano. Se ele estiver na repartição atende na hora.
MULA SEM CABEÇA
Estranho ser que não tem cabeça mas solta fogo pelas ventas. Trabalha atualmente como delegado de policia e está economizando para comprar um diploma de bacharel em direito. Só tem um jeito de combatê-lo: chame o ladrão, de preferência o Burra Cega.
LOBISGAY
O lobisgay é peludo e, nas noites de lua, sai pelas ruas e boates uivando assim: “uuuuuuuiiii”. É muito parecido com um lobisomem, mas não é. A diferença é que o lobisgay só ataca homens, de preferência jovens. Para afastar o lobisgay não adianta se fazer de valente. Aí e que ele ataca mesmo. Você tem que balançar as mãozinhas e chamá-lo de “maninha” que ele vai embora.
VISAGEM
Visagem vivia aparecendo em casa de pobre. O pessoal rezava mas não tinha jeito. Aí resolveram votar nele pra Senador da República. Pronto, nunca mais apareceu. Mas daqui a quatro anos ele volta, vocês vão ver.
Escrito por Antonio Alves às 04h33
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não vi e gostei
Não vi o filme, mas o comentário é ótimo. Foi a Mag quem mandou o texto, o autor é aquele mesmo que anda, como ela diz, "em busca do borogodó perdido". Leiam e, por favor, não comentem muito. Prometo colocar logo outro texto pra mudar de assunto. (Em dois pedaços, que o texto é grande)
Um trem para 2046
Joaquim Ferreira dos Santos
Ah, se Antônio Maria e Danuza Leão tivessem visto “2046 — Segredos do amor”. Sofreriam menos. Não teriam acordado de madrugada para injuriar as estrelas, não escreveriam depois como foram infelizes. Conformar-se-iam com o destino dos amantes, com essas fórmulas verbais feias que servem apenas para evitar o eu te odeio, desgraçada. Jogariam as mesóclises na parede, chamá-las-iam de lagartixa, morreriam de rir de uma construção dessas e partiriam para outra como nos é de destino. Assim. Fui. Assim, simples. Passar bem, sua megera. Quando quiser, pega o vestido vermelho que você esqueceu. Está no armário da empregada. Quando puder, devolve o DVD do Rappa que eu emprestei e você, Pixinguinha, não viu. Sem ressentimento. Há quem cante Orestes Barbosa. O amor é gema de ovo no copo azul lá do céu. Às vezes não há tanto bom humor disponível na farmácia do banheiro. Vá ao cinema. O melhor remédio para os males das paixões findas está no Arteplex. A felicidade mora no apartamento a o lado, o 2046. O problema é que ele sempre muda de hóspede. Antônio Maria. Danuza Leão. Diante de “2046” eles recordariam o que já estava escrito desde a primeira vez que se viram numa boate do Copacabana Palace. Pensariam melhor antes de abandonar as famílias e partir para a aventura. A impossibilidade amorosa ecoaria o chocalho da serpente nos cubos de gelo do uísque. Já estava escrito na poeira do big-bang. Não vai dar certo. As gigogas invadiram as praias para trazer a mesma mensagem aos que se aventuram pelo amor de verão. Só se engana quem quer. Dura um dia. Dois. Quatro anos. Depois pára de durar. É do jogo das algas marinhas e do dormir em conchinha. É da expectativa dos gemidos. Danuza. Maria. Não esqueceriam que o amor fecha as portas às três da madrugada e fica surdo, ei, garçom, aos pedidos de que se abra o bar para mais uma. Deveriam reconhecer. Há alguma inteligência nisso. Só pode. Não insistir na saideira e vitupérios de aniz. Suspirar. Reconhecer. Está de bom tamanho. O amor acaba. Com um tiro nos cornos, um bocejo na sobremesa, um grito de vagabunda. Acaba às seis da manhã, anunciado por uma cigarra de fuso descontrolado. É preciso ter ouvidos afinados para perceber os cacos-barcelos do coração despedaçando. Ouve só. Escuta essa. Eu conheço o caso de uma mulher que suspirava em ah. Numa noite dessas de verão quente gemeu em uh. Ela não ficou surpresa quando de manhã viu o vazio no travesseiro ao lado. O marido tinha notado. Foi-se.
Escrito por Antonio Alves às 17h46
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continuando
Eu vi “2046 — Segredos do amor” e vou ser sincero. Não há segredo algum no filme do chinês Wong Kar-Wai. As imagens trazem o mais moderno enquadramento fotográfico do cinema. De resto, é feito aquele torcedor com a placa, eu já sabia, comemorando o título do seu clube. Acaba. Nasceu para isso. Quem descrê? Com uma porta batendo, um telefonema de madrugada, um grito de eu não agüento mais, sua ordinária. O amor acaba. Paulo Mendes Campos também sabia e fez uma crônica liricamente-dolorosa, como lhe era de estilo, com o título. Se não acaba não foi amor. Foi biscate emocional. Dói. Fazer o quê? Faz parte da idéia. Acabar aqui e começar ali. A dialética dos barbudos aplicada ao que interessa na mais-valia dos sentimentos. Com a diferença de que o amor não vale nada. O amor é armadilha sem futuro, punhado de frases banais significando todas a mesma coisa, e essa coisa está no filme. Fica comigo esta noite, danada, chefona, gata extraordinária. Pessoas são diferentes. Não há nada mais diferente do que um jornalista do Cosme Velho e o jornalista chinês do filme. Já na hora de sofrerem calados a punhalada de suas meretrizes-pistoleiras, eles colocam na vitrola, ouçam o filme, uma gravação qualquer de “Perfume de gardênia”. Choram, os otários. Pessoas são diferentes, estou de acordo. Histórias de amor são todas iguais. Em “Grande Hotel” ou em Paul Auster. Os motoristas de ônibus, os jornalistas do segundo caderno do GLOBO. Todos gritam a mesma coisa que o chinês do filme. Volta. Me abraça. Em 2046, eis um dos motes do filme, o amor não doerá mais. Será prática entre andróides aperfeiçoados para levar as porradas da incomunicabilidade. A solidão na boa. Faltam 40 anos para que chegue 46 e se coloque em prática a sacada de Manuel Bandeira. Corpos se entendem, almas não. O filme é futurista, o amor é o mesmo desconforto de sempre. Cada um fala uma língua. Não há paz. Não há experiência que alivie o sofrimento do próximo desencontro. O amor é o tal carro com os faróis virados para trás, iluminando o passado e seu caminho já percorrido. A dor de ontem não alivia a de amanhã. Dói sempre mais. Peito partido, coração alquebrado, solidão-filha-da-mãe. Foi o que eu vi no filme e recomendo que cada um veja nele o que quiser. É triste. O amor é triste. Soluça patético como essas frases curtinhas. Eu te amo. Beija minha boca. Não me abandona. “2046”, o melhor filme da temporada, é de chorar com seu desapego ao que possa ser qualquer aceno de felicidade. A felicidade no filme não é sequer a gota do orvalho numa pétala de flor. Se a esperança existe, deixaram na mesa de edição. Chora-se muito. Na tela, na platéia. Em todos a impressão de que a única mensagem positiva é a do amor sem otimismo. Não dá para ter esperança em comunicar a paixão ao outro. Eu te desejo, ela não me deseja. Eis o diálogo que mais se ouve nas ruas. O poeta triste sentado na Praia de Copacabana me disse um dia. O amor é isso que você está vendo, zé-mané. Hoje beija, amanhã não beija, depois de amanhã é domingo e segunda-feira ninguém sabe o que será. Em português já era incompreensível. Agora a melhor definição de amor vem em chinês. É cada vez mais complicado. Ninguém entende nada, mas eu quero ver de novo essa história. Muitas vezes. Crítico fosse, eu teria colocado o bonequinho aplaudindo de pé e chorando muito. Colocaria também uma bonequinha ao lado dando um tapa na cara do idiota. O bonequinho não aprende. Ninguém quer aprender. Se tirarem esse impulso de infelicidade de nossas vidas, ninguém sa i mais d e casa para trabalhar. É o que nos resta. Zumbis numa viagem para 2046, quando a memória de quem se amou não mais doerá. Ei, moço, faz favor. Um bilhete pra mim nesse trem. Sim. Sem volta.
Escrito por Antonio Alves às 17h45
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meninos
Texto que a Márcia mandou pra nós, achando que talvez não fosse qualquer coisa. Mas é. Meninos e meninas não gostam só de brincadeira. Às vezes ficam quietos, com o olhar no horizonte, como se estivessem lembrando de um tempo em que navegavam noutras águas...
Sobre um menino e suas águas
Carlos Rodrigues Brandão
Eu quero falar de um amigo querido. Um desses amigos de quem a gente sente falta, mesmo quando ele está perto. Um amigo desses que a gente sempre lembra, e só o lembrar dele clareia o momento dessa hora.
Desses que sorriem fundo, cheio de querer bem para todo mundo: uma pessoa, um passarinho, um peixe de rio... Eu acho que ele gosta até do que não existe. E que, então, começa a existir, de tanto ser gostado.
Um desses amigos que falam pouco, pausado, baixinho. E então as pessoas em volta apuram o ouvido, porque ele é dessas gentes de quem se quer ouvir até o silêncio.
Gosto muito dele. É um amigo de longe, e é para sempre. E o mais estranho, é que eu nunca conheci ele...
Quer dizer, nós nunca conversamos, moramos distante um do outro. Eu nem sei se bebemos água de um mesmo rio. Se já olhamos com espanto, felizes de ver um mesmo pé de ipê florido em agosto. Ele numa semana, e eu na outra. Ele não sabe que eu existo e nem conhece o meu nome, como eu conheço o dele, e quero escrever aqui: Manoel de Barros.
Faz muitos anos que eu leio tudo o que ele escreve. Às vezes pego um livro e leio de uma vez só. Deixo passar uns dias, pego de novo e leio outra vez... de trás para frente. Outras vezes gosto de abrir o livro dele em qualquer página. Leio um poema, leio dois, leio quatro. Depois fecho os olhos... é tão bom.
Tem escritores, tem poetas que escrevem para dizer como as coisas são. Tem outros que escrevem para inventar como elas poderiam ser, se tudo fosse mais encantado e, por isso mesmo, mais verdadeiro.
Com esse amigo, Manoel de Barros, tenho aprendido a esperar flor florir, a olhar o mato e ver a festa, a conversar com lagartixa, a fazer peraltices com as palavras, a espiar vôo de passarinho até ver a cor do vento.
Um dia, quem sabe, eu aprendo... eu só não, nós todos, a carregar água na peneira, a me apaixonar por moça que não existe.
Eu sempre sonho conhecer um dia esse amigo de tanto tempo. Mesmo que ele fale pouco vai ser uma conversa sem fim. Mas querem saber de uma coisa? Eu até imagino o que ele vai me dizer quando eu contar para ele quanta coisa eu aprendi lendo o que ele escreve. Ele vai me dizer assim: “Não leia os meus poemas para aprender coisa nenhuma, leia só para gostar de mim. Melhor ainda, para gostar de águas e meninos como eu”.
Escrito por Antonio Alves às 15h43
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